Eu, professor
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terça-feira, 24 de junho de 2014
Para início de conversa (parte 1)
Para início de conversa, eu não nasci professor. Na verdade, nunca quis trabalhar na área. Quando comecei, as circunstâncias me impeliram a ir ficando. Precisava de dinheiro, preciso de estabilidade. Fui ficando.
Há tempos queria registrar minhas experiências em sala e fora dela. "Por quê", pensa você, "alguém quer escrever sobre ser professor?" Não; não morro de orgulho de ser professor. Não consigo estabelecer essa hierarquia que muitos estabelecem, como se medicina, direito ou pedagogia automaticamente te tornasse uma espécie de ser honrado e esclarecido. Ser professor não te torna especial, a não ser pelo respeito e dignidade que toda profissão ou profissional merecem, quando desenvolvidas de forma digna e respeitosa.
Pode parecer engraçado, mas só por essa minha visão menos brilhante, menos tocante, menos musical, digamos assim, da profissão, já consigo desafetos dentro da minha profissão. Em geral, os professores (exceções, lembre-se das exceções) são como muitos policiais que conheci: fazem questão de manter os privilégios da profissão, mesmo sem merecê-los na sua prática profissional. Então, se você é professor deve estar pensando: "E que raios de privilégios nós temos?!" Bem, esse tema é longo, mas vou me arriscar a descrever um cenário nublado e confuso, que irei clareando aos poucos no blog (e que, no fundo, é a motivação para que eu o tenha criado):
1. O professor gosta dessa antiga aura de respeito e infalibilidade que acompanha a profissão desde sempre (mas que vem se perdendo, felizmente);
2. Desde que entrei numa escola, como aluno e depois como educador e, agora, como pai, vivenciei situações de violência dos professores com seus alunos. E, não, não estou falando da época da palmatória. Coisas mais "simples", mas cotidianas: berros, intimidação, humilhação pública, beliscões, empurrões, apertões no braço. E não estou falando de ensino médio ou de escolas onde os professores convivem em ambientes violentos e sentem-se ameaçados. Estou descrevendo situações que acontecem do primeiro ano do fundamental ao ensino médio, em escolas pacatas do interior, com menos de trinta mil habitantes, por exemplo.Para cada dez situações dessa, conheço uma em que o aluno ofendeu ou feriu um professor.
3. O professor é sempre vítima: os alunos "não querem nada com nada", os pais não acompanham os filhos, o salário é ruim, as salas estão cheias, a direção é omissa, a carga horária é carregada, as universidades são ineficientes, etc.etc.etc. Agora, se você é professor, esta se perguntando:"fdp, aonde esta a mentira aí?" Realmente, todas essas situações (e outras piores) fazem parte do cotidiano do educador. O problema é que tambem acabam virando excusas para aulas sem planejamento, relação problemática com as turmas, atrasos, faltas, avaliações feitas sem critérios, etc.etc.etc. Ora, me pergunto o que aconteceria se todo profissional usasse os problemas que encontra em sua profissão para oferecer um péssimo serviço, usar ferramentas ultrapassadas, não fazer diagnósticos, não dar retorno ao seu cliente. E se a sua resposta for:"Você esta viajando; todo mundo já faz isso!" Eu te diria que a) você deve fazer o que é certo, por que é certo e não por que as outras pessoas fazem ou deixam de fazer; e b)você é um profissional do desenvolvimento humano: se acredita que não se pode mudar as pessoas, esta na profissão errada, amigo (a). É quase como um médico acreditar que as doenças são doenças e devem ser aceitas como tal, que não há nada a ser feito. Basta um assessor pedagógico propor uma pesquisa simples em sala de aula para a maioria se revoltar e iniciar as ladainhas:"já não chega todo o trabalho que temos? Para que perder tempo, se os alunos não se importam? Com esse salário? Vão me pagar a mais? Já não tenho tempo para meu trabalho, como vou arrumar tempo para isso?" E por aí vai. Grande parte esta focada nos problemas da escola e da educação (repito: que são reais e devem ser combatidos), e não no desenvolvimento do aluno, da comunidade, do bairro, da cidade, etc.
4. O(a) aluno (a) é um inimigo. Ou quase. É uma pessoa que planeja o mal do professor, que odeia todos os seus esforços em fazê-lo aprender algo, que tem seu destino traçado e no primeiro ano do ensino fundamental já tem um rótulo na testa, que perdurará até concluir seus estudos. Esses rótulos vão de "não esta nem aí", passando por "esforçado", "chato", até "não tem jeito; vai ser bandido". E o pior: a maioria das pessoas compra essa perspectiva! Todos vêm o professor como uma presa fácil a estes monstros descontrolados que os pais prendem dentro da escola para não ter que ficar com eles...
Vou tentar exemplificar. Quando encontra uma situação de roubo dentro da sala, por exemplo, o professor não vê aquela atitude como uma coisa aprendida pelo(a) aluno(a) como qualquer outra atitude: falar, comer ou se relacionar. Vê aquilo como um traço de personalidade,de caráter, que não pode ser mudado, mas apenas castigado. Na maioria das vezes, o profissional irá piorar a situação, traumatizando a criança, até mesmo convencendo-a de quê ela é mesmo assim e não irá mudar. Na melhor das hipóteses, o professor chama o aluno para uma conversa. Quase sempre se adota posturas radicais: ou complacente demais ou castigador demais.
(Em tempo: Eu já roubei em sala. Lembro como se fosse hoje. Eu tinha dez anos, tinha um apontador lindo em cima da mesa e eu queria para mim. Sabia que era errado, mas "a ocasião faz o ladrão", como se diz. Quando fui descoberto, a professora gritou comigo, me disse que eu iria para o inferno e me fez pedir desculpas na frente de todo mundo. O menino dono do apontador me chamou no recreio e o deu para mim; disse que era mesmo muito bonito, mas que eu só devia ter pedido. Ele me ensinou mais que aquela professora, que por sinal, tinha faculdade e recebia para me ensinar a ser um ser humano melhor).
Acho incrível ver profissionais que estudaram e aprenderam (ou deveriam ter aprendido) teorias avançadas de psicologia, técnicas pedagógicas, recursos práticos de intervenções em situações de aprendizagem, pesquisas sobre o desenvolvimento do cérebro e características comportamentais de cada idade, etc. comentarem sobre alunos de treze anos:"é um bandido, tem que jogar logo na febem" ou "é uma biscatinha; vem na escola para mostrar a bunda". Os pais têm "direito" de ter essa perspectiva, outros profissionais têm o "direito" de ter essa perspectiva, mas não um profissional da educação! Quando um carro tem um problema um leigo pode dizer:"esse carro é uma bosta". Mas um mecânico irá sorrir e dizer:"esse carro ultrapassou a temperatura média aceitável, resultando num desgate prematuro das peças,causado por uso de óleo incorreto" ou coisa que o valha. Se ele disser qualquer coisa baseada na pura frustração, no senso comum, procure outro profissional! Vou falar mais sobre isso em outras postagens.
5. Não tem "fiscalização" do trabalho do educador. (Essa não é a melhor expressão). Existe um termo chamado "autonomia pedagógica" que diz que o educador tem liberdade para escolher e aplicar os recursos que acreditar melhores para uma determinada aprendizagem.Não questiono isso. Mas, no outro polo, temos professores que não aceitam especificar seus recursos avaliativos, textos, planos de aulas, etc. Ou ainda, apresentam o planejamento, mas não o aplicam. Se você quiser ser um professor que aplica filmes constantemente (para "matar" aula) ou aplica filmes com critérios fracos e ineficientes, há poucas regras que irão impedi-lo e muitas formas de se burlar essas regras. Em SP, onde sou professor, por exemplo, é cobrado uma ficha, onde você explica os motivos pelos quais irá utilizar o projetor ou a TV.A ficha é bem útil e pede especificações pedagógicas que demosntram uma preocupação séria com o recurso didático. Mas, na maioria das vezes, a ficha não é cobrada. Quando é cobrada, não é lida. (Já entreguei a ficha em branco, por descuido. Quando fui entregar a ficha que estava preenchida, duas horas depois, a assessora pedagógica sorriu vermelha:"nem tinha notado...")Ou seja, você pode ser o pior professor do mundo, mas se não bater em ninguém e entregar a papelada exigida (relatórios, diários, planejamentos, etc.), esta emrpegado. Se seus alunos forem mal, culpe-os, ou o governo, ou os pais, ou os celulares, etc. Ninguém irá te julgar.
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